"Se eu tivesse que inventar uma cantora, ela haveria (naturalmente) de
ter uma voz muito bonita. Depois, eu a treinaria bastante para cantar
bem, aprendendo os segredos da colocação da voz,
das
divisões, da respiração, da
empostação, da naturalidade, essas coisas que se
aprende
na escola. Mais tarde, diria a ela que isso tudo não basta.
Uma
cantora não é um
instrumento musical. É uma
pessoa, um ser
humano e é fundamental que
isso fique claro
quando canta. As
emoções,
a
tristeza, a alegria, a
depressão, a
angústia, tudo isso que uma
música popular
propôe tem que ser
transmitido na hora de
cantar. Depende muito dela que a
música não seja raspada de suas
sensações
quando
é transmitida. E diria
finalmente para cantar
as coisas que vêm do povo. As
músicas feitas pelos
gênios do povo, impregnadas
de talento e
limpas das ambições comerciais e da neurose da
novidade,
tão próprias dos compositores de classe
média.
Sugeriria que ela servisse de ponte entre a cultura popular e o
consumo, não deixando que o objetivo prejudicasse a origem.
Teria que ser, portanto, uma cantora de muito talento. Beth Carvalho me
poupou este trabalho. Ela já existe."
Sérgio Cabral